A partir dos 60 anos, manter-se ativo é uma das melhores ferramentas para preservar a autonomia e a qualidade de vida. Entre todos os exercícios de força, os agachamentos se destacam por sua capacidade de trabalhar de forma simultânea as pernas, os glúteos e a zona central do corpo (core), grupos musculares fundamentais para realizar tarefas cotidianas como levantar-se de uma cadeira, subir escadas ou caminhar com segurança.
Praticar agachamentos de forma regular ajuda a preservar a massa muscular, que tende a diminuir com a idade, e também contribui para melhorar o equilíbrio e a estabilidade. Isso se mostra especialmente importante para reduzir o risco de quedas e possíveis fraturas de quadril, um dos principais problemas de saúde nas pessoas idosas.
Ainda assim, e dada a sua popularidade e os benefícios que traz, o agachamento é um daqueles exercícios que todos acreditamos dominar porque já o fizemos mil vezes: na academia, em casa, em aulas coletivas ou até mesmo sem perceber no dia a dia, ao nos levantarmos e sentarmos em uma cadeira. Mas o fato de ser um movimento cotidiano não significa que seja simples.
De fato, o agachamento é um dos exercícios onde mais se cometem erros, mais mitos circulam e mais dúvidas carregamos.
e quando a técnica não acompanha, não apenas se perde eficácia: também se compromete a segurança e se freia o progresso. Por isso, convém entender o que estamos fazendo de errado e como ajustar o agachamento para que ele funcione de verdade.
O agachamento é um exercício que envolve quadril, joelhos, tornozelos, core, trabalha glúteos e costas. Praticamente o corpo todo. E embora seja considerado um básico universal, a especialista em fitness Paula Suárez resume assim em um de seus vídeos: "O agachamento é um exercício multiarticular que, embora seja um básico clássico, eu poderia dizer que é um dos mais complexos em nível técnico".
Essa complexidade explica, paradoxalmente, o fato de ser um dos exercícios onde mais erros se repetem continuamente. Descer pouco, arredondar as costas, inclinar demais o tronco, jogar o peso na ponta dos pés, travar os joelhos para trás. E o curioso é que boa parte dessas falhas vem de tentar "fazê-lo perfeitamente" seguindo regras que já estão ultrapassadas.
Suárez insiste que a técnica é a base de todo o resto. "Se não houver uma boa execução, não há um estímulo muscular ideal… não haverá hipertrofia eficiente e o seu progresso será afetado".
Ou seja: você pode fazer cem agachamentos por semana, mas se estiverem mal executados, quase não servem de nada. E isso, a partir dos 65 anos, pode ser um problema se não conseguirmos os benefícios que buscamos.
Se existe uma crença que resiste a desaparecer é esta: a de que os joelhos nunca devem passar da ponta dos pés. Suárez a desmonta sem rodeios: "Para fazer um agachamento, um erro frequente é pensar que os joelhos não podem passar da ponta dos pés".
Esse medo vem de um estudo de 1961 que se popularizou no powerlifting e no fisiculturismo da época. Um estudo limitado em sua abordagem e que, com o tempo, ficou completamente ultrapassado. Mesmo assim, a mensagem gravou-se tanto que ainda hoje é repetida em academias, redes sociais e aulas coletivas, como se fosse uma verdade inquestionável.
A evidência atual vai na direção contrária. Suárez explica com clareza: "Ao longo dos anos, evidenciou-se que restringir o movimento até a vertical da ponta dos pés pode representar um risco maior para a região lombar".
A razão é mecânica: quando os joelhos são forçados a ficar para trás, o tronco precisa se inclinar mais para frente para compensar, e essa inclinação extra acaba sobrecarregando a região lombar. Tentar "proteger" os joelhos, na prática, pode acabar sobrecarregando a parte inferior das costas.
Deixar que os joelhos avancem é, na realidade, biomecanicamente lógico e, em muitos casos, necessário para manter uma boa postura durante o movimento. Não é uma falha de execução: é uma parte natural do gesto.
Um dos pontos que Suárez mais ressalta é que nem todos os corpos se movem da mesma forma, por mais que as aulas de academia insistam em uma postura idêntica para todos. "É importante reconhecer que nenhum de nós é igual… devemos encontrar o que funciona melhor para nós de acordo com a nossa anatomia, estado físico e biomecânica".
E isso é importante a partir dos 65 anos, quando cada pessoa precisa adaptar o exercício ao estado de saúde e à forma física que possui.
Isso significa que o agachamento de cada pessoa não tem que ser parecido com o do treinador, com o de uma amiga ou com o de um vídeo viral. O comprimento dos fêmures, a mobilidade dos tornozelos, o formato do quadril, o estado físico ou a flexibilidade individual condicionam a amplitude de movimento de cada um. Quem tem fêmures longos costuma precisar inclinar um pouco mais o tronco; quem tem boa mobilidade de tornozelo pode deixar os joelhos avançarem sem nenhum problema; e quem tem uma rotação de quadril mais limitada terá uma abertura dos pés diferente da de qualquer manual genérico. E se a pessoa tiver um equilíbrio ou uma forma física limitada, os agachamentos na cadeira são uma excelente opção.
A chave, segundo Suárez, não está em copiar uma postura idealizada, mas sim em encontrar a versão do agachamento que respeite a estrutura corporal de cada um, sempre dentro de diretrizes básicas: coluna neutra, joelhos alinhados, peso bem distribuído e movimento controlado do início ao fim.