Não sou velho o suficiente para viver mergulhado na nostalgia de tempos melhores, mas, ultimamente, sempre que marco um encontro, acabo lembrando com mais saudade daquela fase em que, ao chegar a sexta-feira, o ponto de encontro estava claro, mas o horário de voltar para casa, não. Não havia pauta, nem ordem do dia.
Era comum passar horas destrinchando todos os detalhes de um único assunto antes de passar ao próximo. E, se o dia não fosse suficiente, a conversa continuava no dia seguinte.... Conversar com calma era tão natural quanto esperar a amiga que sempre chegava atrasada no mesmo lugar onde, muitas vezes antes, o grupo inteiro já havia se encontrado. Não existiam pressas, nem alarmes.
Há algumas semanas, um amigo com quem almoçávamos desligou um alarme durante a sobremesa para se despedir. Ele havia programado um lembrete para sair correndo rumo a outro compromisso. À mesa, o gesto gerou reprovação: “Justo hoje, que conseguimos nos reunir…”. Mas esse julgamento escondia o verdadeiro problema: estamos nos encontrando cada vez menos - e sempre com pressa.
Essa chamada “cultura de apenas se atualizar” é consequência direta da síndrome da vida ocupada que domina a sociedade ocidental. O tempo continua sendo contado da mesma forma - minutos com 60 segundos, horas com 60 minutos. O que mudou foi o excesso de compromissos. Sobrecarregamos a agenda e, ao tentar encaixar cada vez mais coisas no mesmo espaço de tempo, acabamos retirando tempo justamente de quem nos traz felicidade.
Você já percebeu como o tempo deixa de importar quando a vida é realmente compartilhada? Faça o teste: marque um almoço em um dia útil com alguém de quem você gosta muito. A pressa para voltar ao trabalho faz com que a experiência seja completamente diferente de um sábado livre, sem compromissos marcados.
Tudo soma na construção de um vínculo afetivo, é verdade. Mas, se uma relação fica permanentemente limitada a encontros apressados, dificilmente se mantém estável, muito menos cresce. Relações que já viveram tempos melhores acabam se apagando quando a nostalgia deixa de sustentar o vínculo, a menos que se encontre uma alternativa.
No contexto dos relacionamentos amorosos, existe uma estratégia bastante conhecida para evitar a rotina: o método 2-2-2. Ele propõe uma noite de encontro a cada 15 dias, uma escapada de fim de semana a cada dois meses e férias mais longas, de ao menos dez dias, a cada dois anos.
A ideia é priorizar o tempo juntos, sem interferências externas, para reconectar o casal e manter a paixão viva. O problema é que, muitas vezes, o aspecto financeiro parece inviabilizar o método. Nem todos podem arcar com viagens frequentes. No entanto, a crítica perde o foco do essencial: a questão não é onde nem quando, mas a presença, a qualidade do tempo e a companhia.
Suponhamos, por um momento, que não precisamos de mais nenhuma variável além da presença para que nossas relações funcionem. E presença não se limita apenas aos encontros face a face - ainda que eles sejam fundamentais -, mas envolve a saudável capacidade de manter a atenção calma sobre o outro, algo que praticamente desapareceu na cultura do desempenho constante, que valoriza estar sempre ocupado.
Essa lógica não afeta apenas os adultos. O aumento dos diagnósticos de transtornos de atenção em crianças guarda relação com o estilo de vida acelerado das gerações anteriores.
Como defende o pensador Gregorio Luri, precisamos resgatar o valor da serenidade, não como simples ausência de problemas, mas como domínio de si mesmo.
Uma pessoa serena não é aquela que não sente inquietação, mas aquela que aprendeu a não ser arrastada por todo estímulo, emoção ou urgência. Serenidade está intimamente ligada à capacidade de atenção e de espera - duas habilidades penalizadas na sociedade da pressa. E para prestar atenção, é preciso ordem.
Reconheço que vejo meus amigos muito menos do que gostaria. Em uma viagem recente, uma delas demonstrou frustração pela minha falta de presença. Ela não vive seu melhor momento e precisa do mesmo espaço que sempre ofereceu quando outras de nós precisaram.
Vivemos em cidades diferentes, mas isso não é impedimento. Este ano repetimos uma escapada de fim de semana só entre amigos. A experiência foi tão profundamente humana que espero que se torne uma tradição por muitos anos.
Esse é o “1” do método 2-2-1: uma viagem por ano. Não precisa ser algo caro ou distante. Pode ser um fim de semana na casa de uma amiga, alternando os lares a cada ano, ou dois dias em uma casa rural. Investir tempo de qualidade com quem você ama é investir em saúde emocional.
O primeiro “2” do método é uma ligação a cada 15 dias. Se for necessário agendar para evitar interrupções, que assim seja. O objetivo não é apenas se atualizar, mas conversar sem pressa, compartilhar sentimentos, pensamentos e manter viva a sensação de companhia, mesmo à distância.
O segundo “2” propõe que, a cada dois meses, o encontro seja presencial. Quando isso não for possível, a tecnologia ajuda, mas nada substitui o contato físico. Um abraço ou uma mão apoiada sobre a outra acalma qualquer dor.
Quando se trata do vínculo amoroso, uma adaptação é necessária. Uma escapada anual ou encontros muito espaçados não são suficientes para evitar a monotonia.
Nesse caso, o método propõe:
- A cada dois dias, uma conversa ou debate sobre temas importantes: família, objetivos, política, espiritualidade - sempre sem celulares por perto.
- A cada 15 dias, um encontro a sós, sem interferências de amigos, filhos ou familiares.
- Uma viagem por ano apenas do casal, especialmente importante quando a rotina familiar torna difícil o tempo exclusivo a dois.
Se a felicidade se constrói em companhia - com amigos que nos lembram quem somos e com uma parceria que vai além da rotina -, por que aceitamos uma vida em que o afeto chega sempre atrasado?
A síndrome da vida ocupada nos roubou tempo, presença e conexão. O método 2-2-1 não cria horas extras no dia, mas obriga a olhar para o tempo com mais sentido. E esse novo valor permite viver de forma mais plena, cercado por quem realmente importa.