Afinal, houve uma 'mulher papa'? A história proibida da 'Papisa Joana' ganha força após a morte de Francisco; Entenda!
Publicado em 24 de abril de 2025 às 10:12
A Igreja Católica já foi comandada por uma mulher? A enigmática lenda da 'Papisa Joana' ressurge em meio às discussões sobre sucessão papal — e levanta polêmicas há séculos
Afinal, houve uma 'mulher papa'? A história proibida da 'Papisa Joana' ganha força após a morte de Francisco; Entenda! Ilustração datada de 1560 da Papisa Joana O parto da Papisa Joana A papisa Juana em uma ilustração em miniatura do século 15 O traje dos clérigos medievais, com uma túnica e a cabeça coberta, tornaria mais fácil esconder o sexo de uma pessoa

Por mais de dois mil anos, 266 homens ocuparam o trono de São Pedro. Nenhuma mulher. Nenhuma exceção — ao menos oficialmente. Mas uma história que atravessa os séculos insiste em contradizer essa narrativa: a da Papisa Joana, a suposta mulher que teria se disfarçado de homem, ascendido ao papado e governado a Igreja por cerca de dois anos no século IX, até sua verdadeira identidade ser revelada de maneira chocante e pública.

A lenda, que retorna com força sempre que o Vaticano entra em transição, como agora com a morte do Papa Francisco, fascina e incomoda em igual medida. Mas o que realmente se sabe sobre essa figura envolta em mistério?

Uma mulher no cargo mais alto da Igreja Católica?

Segundo relatos medievais, Joana teria vivido por volta de 850 e se apresentado como "João, o Inglês" (Johannes Anglicus). Educada e brilhante, teria iniciado sua jornada intelectual disfarçada de homem, já que mulheres eram proibidas de estudar ou exercer funções clericais. Após impressionar pela erudição, teria se tornado secretária da cúria, cardeal e, por fim, Papa, sob o nome de João VIII.

O escândalo veio durante uma procissão, quando ela teria entrado em trabalho de parto em plena via pública. As versões divergem: algumas afirmam que foi apedrejada até a morte, outras dizem que morreu ao dar à luz, ou ainda que teria sido exilada e obrigada a pagar penitência.

Onde começa o mito — e termina a história?

O primeiro registro da lenda data do século XIII, em uma crônica de Jean de Mailly, que fala de uma "Papa mulher" sem nome. Pouco depois, o frade Martin de Opava acrescenta o nome Joana à narrativa e a situa entre os papados de Leão IV (847–855) e Bento III (855–858) — um detalhe que põe a veracidade histórica em xeque, já que os papas desse período são amplamente documentados.

Mesmo assim, a figura da Papisa se consolidou no imaginário medieval, sendo retratada em esculturas, pinturas, cartas de tarô e, séculos depois, filmes e romances.

Pesquisas, moedas e monogramas: há provas?

O arqueólogo australiano Michael E. Habicht, da Universidade Flinders, afirma que há evidências numismáticas intrigantes. Segundo ele, algumas moedas atribuídas ao Papa João VIII (oficialmente reinante de 872 a 882) teriam monogramas e datas conflitantes, indicando dois pontífices distintos — um deles, possivelmente, Joana disfarçada de João.

"Feitos históricos e clericais de Joana foram distribuídos entre Leão IV e Bento III para encobrir sua existência", diz Habicht. Mas há ceticismo. Para Bry Jensen, estudioso citado pela Smithsonian Magazine, essas moedas podem ter sido produzidas durante o auge da popularidade da lenda, não servindo como prova conclusiva.

A iconografia medieval retrata o momento em que Joana dá à luz em público © Getty Images
A sátira que virou arma religiosa

Na Reforma Protestante, a história de Joana foi resgatada como instrumento de crítica ao papado. A possibilidade de uma mulher ter sido Papa — e a Igreja ter ocultado isso — seria suficiente para invalidar a sucessão apostólica alegada pelo Vaticano. Curiosamente, a lenda que a Igreja ignorava por séculos, passou a ser ativamente refutada.

Acredita-se até que o boato tenha dado origem a outro ritual lendário: o uso de uma cadeira furada onde um diácono verificaria os genitais do novo Papa antes da proclamação. Embora sem comprovação, o detalhe mostra até que ponto o mito mexeu com os alicerces do catolicismo.

Joana na cultura: entre a santa e a pecadora

De Boccaccio a Liv Ullmann, passando por filmes, peças teatrais e romances, Joana foi retratada de múltiplas formas: feminista heroica, aberração misógina, símbolo do caos ou mártir da inteligência feminina.

Na versão mais recente, o filme alemão "Die Päpstin" (2009), baseado no romance de Donna Woolfolk Cross, Joana é humanizada, seu parto não é tratado como vergonha, e a história ganha um viés feminista — uma resposta direta ao moralismo medieval.

Mito, verdade ou necessidade?

Para muitos estudiosos, a Papisa Joana nunca existiu de fato. Mas, como destaca o professor Anthony Bale, da Universidade de Cambridge, talvez o valor da história esteja menos na sua veracidade e mais no que ela revela sobre os tempos em que foi contada:

“É uma parábola sobre o poder, a verdade e o papel das mulheres. Mesmo que seja ficção, é moralmente verdadeira para quem a escreveu — e para quem a lê.”

Enquanto a Igreja resiste a discutir a ordenação feminina, a figura da Papisa Joana persiste — como eco do que foi negado, ou como aviso do que jamais poderá ser.

E, agora, com o mundo católico novamente olhando para a sucessão de Francisco, a lenda ganha nova força. Afinal, seria tão absurdo imaginar uma mulher como Papa? Ou seria justamente isso o que mais assusta?

Por Pedro Henrique Cabo | Colaborador
Geek fashionista que canta 'Let It Go' no chuveiro, trata 'O Diabo Veste Prada' como religião e escolheu Piplup como seu inicial. Jornalista metido a designer, cinéfilo de Letterboxd e amante das artes.
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