Pedro deixou o "BBB 26" em meio a acusação de importunação sexual contra Jordana e, de acordo com sua família, o vendedor sofreu um surto psicótico. O paranaense que perdeu o cachê com a Globo não estaria nem se lembrando da participação conturbada no reality e deve ser internado pela família em uma clínica de reabilitação.
A alegação levantada pelos parentes de Pedro fez surgir uma pergunta: qualquer pessoa pode passar por um surto psicótico? E o que acontece no cérebro de alguém que, realmente, passa por isso? Antes de mais nada é importante explicar que o surto psicótico acontece quando se rompe com a chamada "realidade compartilhada".
"Se estamos numa sala, vendo o mesmo vaso de plantas sobre a mesa, esta é uma realidade compartilhada. Já a pessoa em surto vive uma realidade particular que, para ela, é real. Por isso, é um equívoco tentar desconstruir o surto psicótico com argumentos racionais. Por exemplo: o indivíduo que acredita que tem um chip na cabeça, não vai ser curado com alguém tirando uma ressonância magnética e provando que não há nada lá. O paciente responderá que o chip é invisível. Estamos sempre perdendo a batalha quando vamos pela racionalidade", explica o psicólogo André Dória.
Em surto, o paciente pode ter a sensação de perseguição constante, sentir insegurança e medo. Há um grande risco de atentar contra a própria vida ou agredir outra pessoa. "Não por ser violento, mas apenas por estar se defendendo dentro da realidade distorcida em que está vivendo. Durante o surto, o sistema nervoso encontra-se em estado inflamatório, assim como se constata no coração em vias de enfartar", acrescenta Leonardo Araújo, outro psiquiatra.
Outros casos podem levar a pessoa a construir argumentos convincentes a respeito da realidade que só ela vive. E como o quadro de surto psicótico é desencadeado pelo organismo? "É uma condição na qual há uma ruptura da concepção da realidade, por conta de uma alteração de neurotransmissores, sobretudo dopamina, que é comum a condições psiquiátricas, como esquizofrenia, mania e depressão, ou condições clínicas, como encefalite e delirium", completa Kayo Barboza, também profissional da área.
E voltando à pergunta do começo da matéria, sim, qualquer um pode passar por um surto desse tipo. "Há pacientes que nunca tiveram uma crise psicótica, mas que ao se separar em uma relação amorosa, perder alguém da família, perder o emprego, desencadeiam uma psicose porque aquilo que falta, naquele momento, é o que mantinha o indivíduo organizado psicologicamente", explica André Dória citando o caso de um paciente que apresentou surto ao parar de jogar tênis, sua válvula para descarregar a raiva.
Mas quem tem transtornos psiquiátricos pré-existentes ou congênitos apresenta possibilidade mais elevada de ter um surto psicótico. São exemplos durante quadros de esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, depressão com sintomas psicóticos e no transtorno de personalidade borderline. "Mas é problemático se referir a qualquer tipo de comportamento alterado como surto psicótico, isso acaba levando as pessoas a associarem o psicótico à criminalidade", pondera a psiquiatra Paula Dione.
Também é importante destacar que não há como prever quando alguém irá apresentar um quadro de surto psicótico, uma vez que ele é resultado de um processo de dias ou meses - e em alguns casos, anos. "Por isso não podemos confundir o surto psicótico com uma reação de agitação diante de um perigo iminente ou uma situação de estresse extrema. Devemos entender que o surto psicótico, ao contrário do que a expressão popular define como 'surto', é caracterizado por uma perda parcial ou total da realidade", reforça Cláudio Melo, igualmente psicólogo.
"Porém, quando se faz uma leitura retroativa dos acontecimentos, é possível localizar os indícios que prenunciavam a crise. Na clínica psicanalítica é possível identificar os indícios antes de que um surto aconteça, e o trabalho analítico consiste em acompanhar o paciente de modo a evitar ao máximo a eclosão do surto", acrescenta Pablo Sauce.
Por fim, destaca-se que a internação e os medicamentos são usados em uma das fases do tratamento. E que o diagnóstico precoce se torna fundamental no processo de recuperação.