O mundo está cada vez mais acelerado e barulhento, e, por isso, quem tem o hábito de falar demais acaba sendo confundido com alguém inteligente ou que tem a capacidade de engajar. Acontece que a psicologia está destruindo esse mito: pessoas que permanecem mais quietas em conversas podem, na verdade, apresentar um nível de reflexão mental mais profundo do que a maioria.
E não pense você que isso seja um traço ligado à timidez ou à ansiedade, como muitos acreditam. A neurociência tem uma definição bem clara quanto a isso: o processamento profundo. Em termos práticos trata-se de uma forma diferente de interagir com o ambiente e com as informações em torno de si,
Quem já viveu a situação de estar em um jantar ou reunião, com várias pessoas falando simultaneamente, sabe como isso funciona na prática. Se alguns ficam na disputa por um espaço e parem de forma rápida exporem suas opiniões, há o grupo que opta pelo silêncio, organizando os pensamentos, em reflexão e tentando montar uma fala que tenha mais consistência.
Em grande parte dos casos, quando enfim se consideram prontos para falar, o assunto jé é outro.
Estudos da neurociência indicam que pessoas introvertidas apresentam níveis mais altos de ativação cortical mesmo em repouso. Isso quer dizer que seus cérebros já estão bastante estimulados internamente, sem a necessidade de tantos estímulos externos.
Enquanto aquelas pessoas mais extrovertidas tendem a buscar recompensas na dopamina, ligada à novidade, ação e interação, os introvertidos funcionam mais com a acetilcolina, neurotransmissor que se associa à atenção focada, calma e reflexão.
Na prática, isso quer dizer que os indivíduos quietos não estão "desligadas" da conversa. Ao contrário: elas estão filtrando, analisando e selecionando com bastante cuidado o que vale a pena ser dito. Existe uma curadoria mental acontecendo ali, invisível para quem associa participação somente ao volume de fala.
Um exemplo recente que ajuda a ilustrar esse comportamento é Brigitte, personagem de Tatá Werneck na novela das nove da Globo "Quem Ama Cuida". Ao mesmo tempo, a jovem apresenta um grau de instabilidade emocional. Em momentos, a filha de Pilar (Isabel Teixeira) ainda tem falas que à primeira vista não apresentam nexo algum.
Estudos reforçam que quem tem o perfil de se manter em silêncio de forma estratégia analisando o seu redor pode, inclusive, estar associado a decisões mais acertadas no longo prazo. Pessoas que processam informações de forma mais profunda têm a tendência a identificar nuances, riscos e até questões éticas de forma antecipada.
O famoso Estudo Grant, de Harvard, também aponta que pessoas com menos relações, contudo de maior profundidade, relatam níveis altos de satisfação com a vida. Ainda assim, a sociedade muitas vezes interpreta mal esse comportamento.
Em ambientes profissionais, candidatos mais falantes costumam ser favorecidos. Criou-se uma cultura em que falar mais parece significar pensar mais, quando, na realidade, muitos dos pensamentos complexos acontecem em silêncio.
Por isso, há uma mudança importante de perspectiva: quando alguém fala pouco, pode ser que não seja sinônimo da ausência de conteúdo, mas justamente pelo oposto. Pode ser alguém que escolhe suas palavras com intenção, que observa antes de agir e que prefere a qualidade do que a quantidade.