A psicologia explica por que algumas pessoas não conseguem descansar, mesmo quando estão cansadas: ficar sozinho pode fazer diferença
Publicado em 27 de agosto de 2026 às 16:36
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Entenda por que o cansaço nem sempre é suficiente para fazer o corpo desacelerar e como experiências emocionais podem influenciar a maneira como aprendemos a descansar
A psicologia explica por que algumas pessoas não conseguem descansar, mesmo quando estão cansadas: ficar sozinho pode fazer diferença Nem todo mundo consegue descansar quando está cansado. A psicologia investiga como o desligamento psicológico, a regulação emocional e as experiências relacionais podem influenciar a maneira como uma pessoa lida com o descanso Sentir culpa ao parar, permanecer ocupado mesmo exausto ou só conseguir relaxar quando está sozinho são comportamentos que podem ter diferentes explicações. Entenda o que a psicologia diz sobre dificuldade para descansar O corpo pode estar parado, mas a mente continuar trabalhando. Pesquisas sobre desligamento psicológico mostram por que conseguir se afastar mentalmente das demandas também faz parte do descanso Experiências vividas na infância podem participar do desenvolvimento da regulação emocional e da maneira como aprendemos a buscar apoio. Isso não significa, porém, que toda dificuldade para descansar tenha origem na infância

Você chega em casa depois de um dia cansativo. Não há nenhuma tarefa urgente, ninguém está esperando uma resposta e, finalmente, existe tempo para descansar. O corpo pede uma pausa, mas a cabeça parece discordar.

Em vez de deitar, surge a necessidade de organizar alguma coisa. Uma roupa precisa ser dobrada. Uma mensagem precisa ser respondida. A cozinha poderia ficar mais arrumada. Talvez seja melhor adiantar o trabalho de amanhã. E, quando finalmente não há mais nada para fazer, o descanso ainda pode vir acompanhado de culpa!

Para algumas pessoas, esse comportamento pode parecer apenas produtividade, disciplina ou independência. A psicologia, porém, oferece diferentes caminhos para compreender por que descansar nem sempre é tão simples quanto parece e parte deles passa pela maneira como aprendemos a lidar com nossas emoções e relações desde os primeiros anos de vida...

Descansar não é apenas parar de fazer coisas

Uma das áreas que ajuda a entender esse comportamento é a pesquisa sobre desligamento psicológico (psychological detachment).

O conceito diz respeito à capacidade de se afastar mentalmente das demandas, especialmente do trabalho, durante os períodos destinados à recuperação. Na prática, significa conseguir parar de trabalhar não apenas fisicamente, mas também mentalmente.

Uma meta-análise publicada na Frontiers in Psychology reuniu 86 publicações, 91 amostras independentes e 38.124 trabalhadores. Os pesquisadores encontraram associações entre maior desligamento psicológico e menor exaustão, menor fadiga, melhor sono, maior bem-estar e maior satisfação com a vida. O estudo também identificou que maiores demandas profissionais e maior investimento no trabalho estavam relacionados a mais dificuldade de se desligar.

Isso ajuda a explicar uma situação bastante comum: a pessoa pode estar sentada no sofá sem fazer nada e, ainda assim, não estar descansando de verdade. O computador está fechado, mas a cabeça continua trabalhando. A lista de tarefas permanece ativa. Os problemas do dia seguinte continuam sendo antecipados. O corpo está parado, mas o organismo ainda parece responder como se houvesse alguma demanda esperando por ele.

Por isso, descanso e ausência de atividade não são necessariamente a mesma coisa.

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A dificuldade de descansar também pode aparecer como uma necessidade constante de estar ocupado. Terminar uma tarefa e imediatamente procurar outra, preencher todo momento livre ou sentir desconforto diante de um período sem produtividade são comportamentos que podem ter origens diferentes.

Não existe, portanto, uma explicação única para quem não consegue parar. Mas uma possibilidade investigada pela psicologia está relacionada à maneira como a pessoa aprendeu, ao longo do desenvolvimento, a perceber seu próprio valor, suas emoções e a disponibilidade das outras pessoas.

Quando uma criança aprende que precisa estar sempre fazendo algo para receber aprovação, por exemplo, produtividade pode deixar de ser apenas uma atividade e passar a participar da própria sensação de segurança. Isso não significa que toda pessoa produtiva tenha vivido uma experiência desse tipo. Tampouco significa que dificuldade para descansar seja um diagnóstico. A questão é observar o que acontece emocionalmente quando a pessoa tenta parar.

O que os bebês ensinam sobre a importância da presença

Um dos experimentos mais conhecidos para compreender a importância da responsividade nas primeiras relações foi desenvolvido pelo psicólogo Edward Tronick e colaboradores.

No chamado Still Face Paradigm, o bebê interage normalmente com o cuidador. Em determinado momento, porém, o adulto interrompe a interação e permanece diante da criança com o rosto imóvel, sem responder da maneira habitual.

A mudança provoca uma reação clara nos bebês. Eles passam a apresentar menos comportamentos positivos, reduzem a interação e demonstram mais sinais de desconforto.

O trabalho clássico de Tronick, Als, Adamson, Wise e Brazelton foi publicado em 1978. Décadas depois, uma revisão e meta-análise que reuniu mais de 80 estudos confirmou um padrão consistente: durante o episódio de rosto imóvel, os bebês apresentavam menos emoções positivas e mais emoções negativas, além de mudanças no contato visual e no comportamento social.

O experimento não demonstra que um adulto que não consegue descansar necessariamente teve uma infância sem acolhimento. Ele mostra algo mais fundamental: a presença e a resposta de outra pessoa têm importância para a experiência emocional do bebê. E isso ajuda a entender o conceito de corregulação.

Antes de aprender a se acalmar sozinho, existe o outro

A criança pequena ainda está desenvolvendo suas próprias capacidades de regulação emocional. Nesse processo, a relação com os cuidadores participa da maneira como ela aprende a lidar com desconforto, medo, frustração e outras emoções. Em outras palavras, aprender a se regular não significa necessariamente aprender a fazer tudo sozinho.

Uma meta-análise publicada na revista Emotion analisou 72 estudos sobre apego parental e regulação emocional. Os resultados encontraram associações entre a segurança do apego e diferentes aspectos da regulação emocional, incluindo maior utilização de estratégias cognitivas e de busca de apoio social.

É justamente aqui que a ideia de corregulação ganha importância: a criança pode utilizar a relação com um adulto responsivo como parte de seu processo de organização emocional antes de desenvolver completamente seus próprios recursos. Isso ajuda a explicar por que procurar alguém quando estamos assustados, tristes ou sobrecarregados não é necessariamente o oposto de independência.

Buscar apoio também pode ser uma estratégia de regulação!

E se a pessoa aprender justamente o contrário?

Quando determinadas necessidades emocionais não encontram resposta de maneira repetida, algumas pessoas podem desenvolver formas próprias de lidar com o desconforto. É possível, por exemplo, que aprendam a não demonstrar sofrimento, evitem pedir ajuda ou tentem resolver os problemas sozinhas.

A relação entre experiências de negligência durante a infância e regulação emocional na vida adulta já foi investigada cientificamente.

Uma revisão de escopo publicada em 2024 por Ellin Simon, Marloes Raats e Brenda Erens, da Open University of the Netherlands, analisou 25 artigos sobre a relação entre negligência na infância e regulação emocional na vida adulta. O objetivo foi mapear as evidências disponíveis e identificar lacunas na literatura. 

Os autores concluíram que o conhecimento sobre essa relação ainda é limitado e defenderam a realização de novos estudos, especialmente pesquisas longitudinais que acompanhem as pessoas da infância à idade adulta.

Isso é importante porque impede uma conclusão simplista. Não é possível olhar para uma pessoa que não consegue descansar e afirmar que ela foi negligenciada na infância. Mas é possível investigar como experiências relacionais durante o desenvolvimento podem participar da construção das estratégias que usamos para lidar com nossas emoções.

Por que algumas pessoas só relaxam quando estão sozinhas?

Existe ainda uma questão diferente: pessoas que não necessariamente têm dificuldade para ficar paradas, mas que parecem só conseguir baixar a guarda quando estão completamente sozinhas.

Enquanto estão acompanhadas, permanecem atentas ao ambiente. Observam o tom de voz dos outros, percebem mudanças de humor, pensam antes de falar ou sentem necessidade de se adaptar constantemente. Quando a casa fica vazia, finalmente respiram fundo. O corpo parece relaxar.

Essa experiência pode ser compreendida por diferentes caminhos e não necessariamente representa um problema psicológico. Algumas pessoas simplesmente precisam de privacidade para recuperar energia. Mas, em determinados casos, a dificuldade de relaxar na presença de outras pessoas pode ser pensada em conjunto com pesquisas sobre apego e segurança emocional.

Afinal, a presença de outra pessoa só funciona como fonte de tranquilidade quando o organismo consegue percebê-la dessa maneira.

O toque também pode participar da resposta ao estresse

A relação entre proximidade, intimidade e resposta fisiológica ao estresse foi estudada pela psicóloga Beate Ditzen e seus colaboradores.

Em uma pesquisa publicada em 2007, os pesquisadores investigaram se diferentes tipos de interação entre parceiros poderiam influenciar respostas fisiológicas ao estresse psicossocial.

Anos depois, outro estudo analisou 183 casais, totalizando 366 participantes, para investigar a relação entre manifestações de intimidade e a resposta do organismo ao estresse. Os pesquisadores partiram da hipótese de que a intimidade poderia funcionar como um amortecedor da resposta psicobiológica ao estresse e analisaram, entre outros aspectos, a recuperação do cortisol após uma situação estressante.

Pesquisas posteriores do grupo também investigaram especificamente o chamado toque afetivo e sua relação com respostas fisiológicas ao estresse. Esses trabalhos ajudam a compreender que relações próximas não são apenas uma experiência subjetiva. Em determinadas circunstâncias, a interação com alguém de confiança pode estar relacionada à maneira como o organismo responde e se recupera de situações estressantes.

Mas isso não significa que qualquer companhia seja relaxante. Segurança emocional importa.

O que Harry Harlow descobriu sobre conforto

Décadas antes de muitas das pesquisas contemporâneas sobre apego, o psicólogo Harry Harlow realizou seus conhecidos experimentos com macacos rhesus. Os filhotes eram colocados diante de diferentes figuras substitutas, incluindo estruturas de arame e estruturas revestidas com tecido. Em diferentes experimentos, os animais demonstraram forte preferência pela figura que proporcionava contato e conforto.

O fenômeno ficou associado ao conceito de contact comfort, ou conforto do contato físico, e os trabalhos de Harlow tiveram enorme influência histórica sobre a compreensão das necessidades sociais e afetivas dos primatas e sobre o desenvolvimento das pesquisas relacionadas ao apego.

A conclusão, porém, precisa ser colocada dentro dos limites do experimento. Harlow não estudou adultos que não conseguem descansar. Portanto, seus estudos não comprovam que uma pessoa que busca banho quente, cobertores ou outras formas de conforto físico esteja necessariamente tentando substituir o colo que não recebeu na infância.

O que os experimentos ajudam a demonstrar é que conforto e contato possuem importância para o desenvolvimento social e emocional dos primatas.

A infância importa, mas não determina quem você será

Talvez essa seja a principal diferença entre uma leitura simplista da psicologia e aquilo que a pesquisa científica realmente mostra. As experiências da infância podem participar do desenvolvimento emocional, mas não funcionam como uma sentença para toda a vida. É justamente nesse contexto que aparece o conceito de earned secure attachment, ou apego seguro conquistado.

Uma revisão de escopo publicada na revista Psychological Reports por Maria Filosa, Carla Sharp, Alessio Gori e Alessandro Musetti, da Universidade de Parma, Universidade de Houston e Universidade de Florença, analisou 24 estudos sobre o chamado “apego seguro conquistado” (earned-secure attachment), conceito que descreve o desenvolvimento de padrões de apego mais seguros na vida adulta apesar de experiências de apego inseguro na infância. 

A revisão encontrou resultados heterogêneos e considerou as conclusões disponíveis ainda preliminares. Entre os fatores apontados como possíveis contribuintes para esse processo estão a presença de figuras secundárias de apego e a capacidade de refletir sobre as próprias experiências.

Uma pessoa que se acostumou a resolver tudo sozinha pode aprender a pedir ajuda. Quem sempre escondeu o choro pode descobrir que consegue demonstrar vulnerabilidade diante de alguém seguro. E quem associou descanso à culpa pode, pouco a pouco, construir uma relação diferente com o próprio tempo livre.

Talvez o problema não seja descansar, mas sentir-se seguro enquanto descansa

No fim, não existe uma única explicação para quem não consegue parar. Pode ser excesso de trabalho, preocupação, hábitos, dificuldade de desligamento psicológico, necessidade de controle, personalidade, sobrecarga ou uma combinação de diferentes fatores.

Também não há evidência para afirmar que uma pessoa que só consegue relaxar sozinha necessariamente sofreu falta de carinho na infância. Mas a psicologia oferece uma perspectiva interessante: nossa capacidade de regular emoções não é construída completamente de maneira isolada.

As relações que estabelecemos durante o desenvolvimento participam desse aprendizado, e experiências posteriores também podem modificar a maneira como nos relacionamos com os outros e conosco. 

Por isso, para algumas pessoas, o verdadeiro desafio do descanso não é encontrar tempo livre. É descobrir que não precisam estar produzindo para merecer uma pausa. Que podem pedir ajuda antes de chegar ao limite. Que podem aceitar um abraço sem sentir que estão perdendo a independência. E, principalmente, que estar na presença de alguém também pode significar estar em paz.

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Por Luiz Eugênio de Castro | Reality show, redes sociais e TV
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