O chef brasileiro conhecido por valorizar ingredientes amazônicos e defender uma gastronomia sustentável, Saulo Jennings, parecia a escolha ideal para comandar o banquete da premiação ambiental criada pelo príncipe William, que possivelmente não vem ao Brasil com sua esposa Kate Middleton. Mas havia um impasse: os organizadores exigiram que todo o menu fosse 100% vegano.
Os britânicos, acostumados a jantares extravagantes com ovo de codorna, ameixa escaldada e sorvete de baunilha, como o servido no banquete bilionário do rei Charles III para Donald Trump, agora se veem no centro de uma nova polêmica que levanta debates sobre respeito cultural, sustentabilidade e colonização gastronômica.
O problema é que Jennings já tinha em mente a estrela de seu cardápio, o pirarucu, peixe típico e muito apreciado na Amazônia, símbolo de consumo sustentável e parte fundamental da cultura alimentar local. O chef costuma usar peixes de rio em seus restaurantes, Casa do Saulo, justamente por acreditar que o uso consciente desses recursos ajuda comunidades ribeirinhas e preserva a floresta. Diante da exigência, ele achou que se tratava de um mal-entendido.
Segundo o The New York Times, Jennings chegou a propor incluir uma opção vegana no cardápio, mas foi informado de que tudo deveria ser à base de plantas, sem qualquer ingrediente de origem animal. A decisão irritou o chef, que considerou o pedido ofensivo tanto à sua trajetória profissional quanto à tradição culinária amazônica.
“É como pedir pro Iron Maiden tocar jazz”, desabafou Jennings em entrevista. “Foi uma falta de respeito com a nossa cultura e com a própria Amazônia.”
As declarações repercutiram na imprensa brasileira, que enxergou o episódio como um gesto de desprezo dos britânicos pela cozinha local, justamente num evento que diz celebrar a sustentabilidade e o respeito à natureza.
Criado por William e pelo naturalista David Attenborough, o "Earthshot Prize" premia cinco projetos ao redor do mundo por suas contribuições ao meio ambiente.
A cerimônia deste ano será realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com cerca de 700 convidados. O evento segue a tradição de oferecer um menu sustentável e alinhado à pauta ecológica.
Após o desentendimento, e a pedido da equipe do museu, Jennings chegou a sugerir um menu vegano alternativo com ingredientes amazônicos, como mandioca, folha de jambu e castanha-do-pará. No entanto, a proposta acabou sendo descartada pelos organizadores sob a justificativa de que o custo seria mais alto do que o cardápio original à base de peixes.
Apesar do impasse, o chef, que já havia cozinhado para a embaixada britânica durante a coroação do rei Charles III, deve reencontrar o príncipe William em breve, durante a COP30, marcada para Belém, no fim do próximo mês.
“Não tenho nada contra veganos nem contra os britânicos”, disse Jennings. “Mas não vou abrir mão da minha missão como cozinheiro. Meu trabalho sempre foi sobre equilíbrio — sobre honrar o que a floresta e os rios nos oferecem.”